Na coluna Descubra Serra Gaúcha | Turismo internacional: uma oportunidade que não podemos desperdiçar!

O Brasil tem dimensões continentais, belezas naturais extraordinárias, uma diversidade cultural que poucos países do mundo conseguem oferecer e uma hospitalidade reconhecida internacionalmente. Ainda assim, quando falamos em turismo estrangeiro, estamos longe de ocupar o espaço que poderíamos no cenário mundial. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores oportunidades de desenvolvimento para o turismo brasileiro e, especialmente, para destinos como Gramado e toda a Serra Gaúcha.

Foto: litoral catarinense

Uma reportagem recente da Revista Superinteressante, intitulada Por que o turismo no Brasil não decola?, traz uma reflexão bastante pertinente sobre esse assunto. Mesmo registrando números históricos de visitantes internacionais, o Brasil ainda recebe muito menos turistas do que países que, em muitos aspectos, possuem uma oferta turística menos diversificada. A matéria aponta questões estruturais que ajudam a explicar esse cenário: falta de planejamento contínuo, dificuldades de infraestrutura e conectividade, qualidade irregular dos serviços, barreiras de comunicação e, principalmente, uma imagem internacional do país que ainda carrega problemas relacionados à segurança e à insegurança dos viajantes.

Os números, entretanto, mostram que estamos avançando. Em 2025, o Brasil recebeu aproximadamente 9,3 milhões de turistas internacionais, um crescimento de 37,1% em relação ao ano anterior, estabelecendo um novo recorde histórico. Mais do que o número de visitantes, esse movimento representou uma entrada de aproximadamente US$ 7,9 bilhões em receitas provenientes dos gastos de estrangeiros no país. É dinheiro que circula pela hotelaria, gastronomia, transporte, comércio, entretenimento e por uma extensa cadeia de serviços.

Mas o que esses números representam para a nossa região?

Na minha percepção, Gramado e a Serra Gaúcha têm diante de si uma oportunidade extraordinária. Estamos falando de um destino que já possui reconhecimento nacional, uma estrutura turística consolidada e características muito particulares, capazes de despertar o interesse de visitantes de outros países. Nossa gastronomia, os vinhos, a arquitetura, a cultura de imigração, os parques, os eventos, o clima de inverno e a própria identidade regional formam um conjunto de experiências que nos diferenciam de boa parte dos destinos brasileiros.

E os primeiros resultados dessa aproximação com o mercado internacional já são bastante expressivos.

Em 2025, Gramado recebeu mais de 97 mil visitantes estrangeiros, provenientes de 72 países diferentes. E o crescimento continuou em ritmo acelerado neste ano. Segundo levantamento da Civitatis divulgado pelo Portal PANROTAS, entre janeiro e maio de 2026, as reservas realizadas por turistas estrangeiros para atividades em Gramado cresceram 260% em comparação com o mesmo período de 2025. O número de passageiros internacionais com reservas em atrações e experiências na cidade avançou ainda mais: 305%.

A América do Sul aparece como protagonista desse movimento. A Argentina permanece como um dos principais mercados emissores, enquanto Uruguai e Paraguai vêm apresentando crescimentos bastante significativos. Também recebemos visitantes dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Austrália, demonstrando que o potencial de internacionalização do destino vai muito além dos países vizinhos.

Existe, porém, uma diferença entre crescer no número de visitantes estrangeiros e se tornar efetivamente um destino internacional consolidado. E acredito que essa seja uma reflexão importante para todos nós.

Recentemente, estive em Santa Catarina (estado que recebeu mais de 740mil visitantes estrangeiros em 2025) e nas belas praias catarinenses, ouvi uma história que me chamou bastante a atenção. Funcionários do caixa de um supermercado chegam a se surpreender quando um cliente começa a conversar em português com eles. O motivo? A presença tão expressiva de turistas argentinos, uruguaios e de outros países vizinhos nas praias catarinenses que, em determinadas épocas, ouvir alguém falando espanhol parece ser muito mais comum do que ouvir o nosso próprio idioma.

É claro que não estamos falando de uma comparação direta entre destinos com características e volumes turísticos diferentes. Mas essa situação revela o quanto alguns lugares já incorporaram o visitante estrangeiro ao seu cotidiano e à sua própria dinâmica econômica.

E isso, nem de perto, acontece em Gramado, apesar do crescimento recente. Ainda não chegamos ao ponto em que a presença de turistas estrangeiros seja percebida como algo tão habitual em nossos estabelecimentos comerciais, restaurantes, atrações e espaços públicos.

Não vejo isso como uma deficiência, mas como um sinal de quanto ainda podemos avançar.

Ou certa feira, alguns anos atrás em uma pizzaria em Cambará do Sul em um sábado a noite, encontrei mais estrangeiros do que brasileiros naquele ambiente. Eram gringos de todos os lugares, tinham europeus, asiáticos, latino americanos, e todos conversavam entre sim, alguns ensaiavam uma pequena interação com seus vizinhos de mesa, em algum idioma estranho, mas isso me fez pensar o quanto alguns destinos já atraem visitantes de todas as nações, pois o que temos aqui, não se encontra facilmente em outros lugares do mundo.

Para que esse crescimento se transforme em um novo ciclo de desenvolvimento, precisamos pensar além da divulgação turística. É necessário preparar o destino para receber cada vez melhor quem vem de fora. Isso passa pela capacitação dos profissionais, pelo atendimento em outros idiomas, por cardápios e informações turísticas acessíveis, sinalização adequada, facilidade para realizar reservas e pagamentos e, principalmente, por uma comunicação internacional mais eficiente.

Também precisamos avançar na conectividade. A distância e a dificuldade de deslocamento entre aeroportos e destinos turísticos ainda representam obstáculos importantes para quem escolhe conhecer o Brasil. No caso da Serra Gaúcha, fortalecer as conexões aéreas e terrestres, facilitar o acesso a partir dos principais aeroportos e construir roteiros integrados entre os municípios são iniciativas fundamentais.

Nesse sentido o futuro Aeroporto de Vila Oliva, surge como o equipamento capaz de facilitar o acesso destes estrangeiros à nossa região,

Outro ponto que considero essencial é compreender que o turista internacional não precisa conhecer apenas Gramado. Ele precisa descobrir a Serra Gaúcha como um todo. Canela, Nova Petrópolis, Bento Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Caxias do Sul e tantos outros municípios possuem atrativos que podem complementar a experiência e ampliar o tempo de permanência do visitante na região.

Outro ponto que considero essencial é compreender que o turista internacional não precisa conhecer apenas Gramado. Ele precisa descobrir a Serra Gaúcha como um todo. Canela, Nova Petrópolis, Bento Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Caxias do Sul e tantos outros municípios possuem atrativos que podem complementar a experiência e ampliar o tempo de permanência do visitante na região.

É justamente nessa integração que podemos construir um produto turístico ainda mais competitivo. Um visitante que chega para conhecer o Natal Luz, por exemplo, pode descobrir nossas vinícolas, experimentar a gastronomia regional, conhecer a história da imigração, percorrer nossos parques naturais e explorar pequenas cidades que guardam experiências autênticas.

E existe um aspecto econômico que merece atenção especial: o turista internacional representa uma oportunidade de diversificar mercados, ampliar o consumo e reduzir a dependência de determinados períodos e segmentos do turismo doméstico. Ele movimenta hotéis, restaurantes, lojas, parques, transportadoras, agências, guias e pequenos empreendedores. Seus gastos não ficam concentrados em um único setor, mas se espalham por toda a economia regional.

Naturalmente, esse crescimento precisa acontecer com planejamento, responsabilidade e sustentabilidade. Não se trata simplesmente de trazer cada vez mais pessoas, mas de qualificar a experiência, preservar nossa identidade cultural, respeitar a comunidade e garantir que os resultados econômicos beneficiem quem vive e trabalha na região.

Ao terminar de ler a reportagem da Superinteressante, refleti sobre as limitações do turismo brasileiro. Mas, olhando para Gramado e para a Serra Gaúcha, preferi enxergar também as possibilidades.

Temos uma marca reconhecida, uma história para contar, uma cultura que desperta curiosidade, experiências diferenciadas e uma estrutura construída ao longo de décadas por empresários, trabalhadores e pela própria comunidade. Agora, precisamos fazer com que tudo isso seja cada vez mais conhecido além das nossas fronteiras.

Talvez o próximo grande salto do turismo regional não esteja apenas em receber mais brasileiros, mas em conquistar um espaço cada vez maior no roteiro de viagens de argentinos, uruguaios, paraguaios e visitantes de outros continentes.

O mundo ainda tem muito a descobrir sobre o Brasil. E, certamente, também tem muito a descobrir sobre a nossa Serra Gaúcha.

Porque ser um grande destino turístico nacional é uma conquista.
Mas transformar esse reconhecimento em protagonismo internacional pode ser um dos capítulos mais importantes do futuro da nossa região.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *